Entrevista Raul do Couto

Entrevista com Raul Chucair do Couto ex-técnico da Comissão Pastoral da Terra da Prelazia de Cametá durante a construção da hidroelétrica do Tucuruí.

Belém, 07 de Agosto de 2017.

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RaulEntrevistador: Fale um pouco da sua passagem pela CPT, dar uma visão geral desse contexto de quando você trabalhava lá na Prelazia.

Raul: As reações da sociedade civil em relação a forma como foi se implantando a barragem do Tucuruí, ela vinha acontecendo assim, bem esporádico. Tipo assim, em Itupiranga tinha um movimento puxado pela influência da igreja. Em repartimento estava havendo também uma organização. Nesses lugares haviam algumas reações isoladas e bem pontuais. Houve uma coisa interessante que para o povo de Tucuruí esteve num evento de barragens do Brasil, no Nordeste salvo-engano. Creio que em 79 ou 80, por aí assim. A prelazia de Cametá tentava se envolver, principalmente a paróquia de Tucuruí. Ela tentava ver se conseguia alguma resposta a nível das comunidades cristã, as comunidades de base sempre foram muito fortes na prelazia de Cametá. Tentaram através de ações, através dessas comunidades de base. Mas Tucuruí vivia/ antiga (Cobarsa) vivia um processo de transformação social enorme. Quer dizer, a maioria da população já era vinda de fora. A maioria é era população flutuante que vai atrás das grandes obras, das barragens. Então, quer dizer, na verdade, a Prelazia não tinha um método de organização numa realidade em que os problemas sociais se multiplicam, né? Existe uma gama enorme de problemas sociais que não habia antes na Cobarsa, município anterior a barragem. A prostituição, violência, pessoas desocupadas, alcoolismo, uma série de coisas que a igreja católica que com sua metodologia de comunidades eclesiásticas de base não conseguia dar conta, aglutinar essa população. Então, nessa ida desse padre, no encontro da barragem, ele fez o pronunciamento dele, o que estava acontece lá no Tucuruí e a Josefa Alves, chamada Josefina que era assessora se não me engana de uma das federações de trabalhadores não sei se de Alagoas ou Pernambuco. Ela disse “vou tirar as férias e vou até lá com vocês”. Foi assim que começou o movimento dos atingidos da barragem do Tucuruí. Ela chegou em Tucuruí e tomou pé da situação. Organizou primeiro um questionário, fez um levantamento socioeconômico. Não me pergunta onde está esse levantamento que eu não sei. Eu cheguei a ter acesso a tabulação dele. A partir daí começou a identificar os núcleos de existência ao longo de toda área que iria ser alagada dentro da cota de alagação… toda área na verdade que seria atingida, né?  Foram fazendo reuniões, assembleias e constituindo comissões de atingidos de Itupiranga, de Breu Branco, Repartimento. Não havia, assim, um número grande de pessoas interessadas. Ficou o mesmo número de pessoas em Repartimento. E assim foi se constituindo umas quatro ou cinco comissões. Jacundá, Rio Moju, Repartimento junto com Breu Branco. Então, chegou uma hora, numa dessas reuniões em que começou a tentar construir uma pauta a partir do levantamento das demandas dos grandes problemas que surgiram com a implantação da barragem. Uma das demandas era relacionada a indenização. As famílias foram abordadas pelas prestadoras de serviço da Eletronorte para fazer o levantamento do inventário que eles tinham no seu imóvel rural ou imóvel urbano em caso de quem morava nas vilas, né? E havia uma queixa enorme em relação ao preço que derivou da avaliação desses inventários. Então, uma das estratégias nossa era de visitar de novo esses inventários e fazer uma tabela de valores que conseguisse repor o que na legislação chamam de custo cessante. A partir do inventário do imóvel rural, você não tem que avaliar apenas qual o fixo e o / você tem que pegar também tudo o que esse proprietário ou posseiro deixou de ganhar na medida em que ele teve que sair do imóvel e teve que se implantar noutro lugar e refazer a vida dele; Então quer dizer que até ele consiga fazer isso, não é só com o que ele foi indenizado, ele também perde tudo o que ele perde durante dois, três anos, sei lá, depende do que ele possuí de produtivo. Se é pecuária, plantação de pimenta, roça, etc. Então tem um lucro cessante. Então precisava/se demandou um engenheiro agrônomo que construísse com ele uma tabela para avaliação que aplicada ao inventário que a prestadora de serviço da Eletronorte fez, pudesse então calcular o lucro cessante e acrescentar na indenização que foi interessando/ paga aos atingidos, aos donos dos imóveis. Então foi aí que a prelazia tinha dois agrônomos no seu corpo. Prestavam serviço para as comunidades rurais, era uma pastoral chamada Pastoral da Agricultura. Era eu e um agrônomo holandês. Mas eles não queriam colocar o holandês porque ainda estávamos na ditadura, porra. Existia a lei de segurança nacional e eles não queria colocar holandês nessa parada porque era uma contestação a uma grande obra, etc. Então eu fui deslocado. Aí eu entrei com a condição de agente da pastoral da terra. Passei a integrar o corpo dos agentes da CPT da Prelazia de Cametá de Tocantins. Quem era o pároco responsável era o vigário lá da paróquia de Tucuruí. Eu iniciei fazendo não somente pra fazer essa tabela, mas a gente começou a se engajar em todo processo organizativo, né? Todo processo organizativo, fazer reuniões, assembleias e afunilando as pautas de reinvindicação até que a gente criou os canais de comunicação pra tentar fazer as negociações da nossa pauta, né. Da pauta dos atingidos da barragem. Aí tem os desdobramentos depois, quer dizer a consideração inicial que fez com que nós realizássemos dois acampamentos. Eu mesmo passei a me envolver com todo o processo de organização dessas comunidades e desses embates que foram feito com a Eletronorte.

E: Fala um pouco dessa organização do movimento de atingidos. Dissesse uma primeira parte, da vinda da Contag de Alagoas. Que passam seguintes foram dados?

R: A Josefina ela vinha, tirava um encaminhamento nessas assembleias locais, nesses cinco pontos, Repartimento, Breu Branco, Itupiranga, Jacundá e Rio Moju. É:: ela voltava quando a gente tinha programado, por exemplo, vamos tentar uma reunião com a direção da Eletronorte. Certo? As comissões tiravam um comitê central, tinha as comissões que eram tiradas nas assembleias de cada localidade e elas por sua vez tiravam um certo número de representantes pra fazer a coordenação geral do comitê central. Então, com o comitê central a gente tocava todo planejamento que desdobrava/tudo era aprovado no nível mais na base mesmo nas assembleias. Então com isso, primeiro nós fizemos todo um levantamento sócio econômico, depois nós fizemos um levantamento das demandas, quantificamos, né. No sentido de, por exemplo, a gente saber mais ou menos quantas indenizações. Depois tentávamos fazer o contato com a Eletronorte pra qualificar melhor aquela demanda, né. As vezes a gente tinha retorno. Quando não tinha retorno, isso tudo ia virando uma pauta pra tentar uma reunião com a direção. Nós tentávamos. Se não desse certo a reunião com a direção da Eletronorte, aí vinha o recurso do acampamento. Mas quando nós partimos pro recurso do acampamento, era montada uma estratégia, por exemplo, a parte de apoio político, então nós até já deslocamos apoiados pela comissão de justiça e paz. Deslocamos até São Paulo. Nós conversamos com Dom Evaristo (armes). É:: visitamos a comissão de justiça e paz. Captamos recursos da cooperação internacional pra eventos. Tipo assim, pro acampamento tinha aquele recurso. Conseguimos também o apoio da Contag, apoio da CPT nacional. Então fomos montando uma rede de apoio pra que a gente também abordasse a imprensa. Também nós deslocamos o comitê central. Com o comitê fomos até a imprensa, demos as entrevistas e etc e tal. Fomos relacionando sempre a mobilização maior que aconteceu no acampamento de tal maneira que quando a gente reunia com a Eletronorte sem acampamento ou no acampamento, a imprensa estava mobilizada, estava avisada, ia pra lá. Ação Brasileira de Reforma Agrária. A gente tentou montar uma rede de apoio ao mesmo tempo que a gente tentou e conseguimos fazer a titulação com a imprensa pra que o movimento tivesse a divulgação. Flávio Pinto

E: Já falaste dessas comissões. Essas comissões viraram um tipo de organização fixa?

R: enquanto eu saí, não. Tu vai depois captar com a Ainda. Ela continuou.

E: Ficaste lá desde quando?

R: Até 82.

E: E essa questão

R: Mas os desdobramentos desses movimentos foram os sindicatos. Em Repartimento nós conseguimos estruturar uma delegacia sindical que depois hegemonizou o Sindicato dos trabalhadores de Tucuruí. Desde então o sindicato dos trabalhadores rurais de Tucuruí passou a ser um sindicato mais combativo entre os movimentos de afetados. Então essa ida do movimento de base para os sindicatos aconteceu pelo sindicato dos trabalhadores rurais. O sindicato de Jacundá se não me engano participou de todo o processo da luta. Inclusive foi um sangue novo essa luta. EM Jacundá já vinha com os embates pela terra, né. Aí somou mais que estavam debaixo d’agua e pegou um público muito grande da base sindical de Jacundá. Mesma coisa aconteceu com Itupiranga. A base sindical de Itupiranga estava quase toda debaixo d’agua. Esse movimento de atingido da barragem deu uma revitalizada, um sentido novo pro sindicato dos trabalhadores rurais.

E: Falaste um pouco dos acampamentos que foram feitos. Fala um pouco dessa ideia do acampamento, qual era a finalidade, mas também o principal conflito que tinha entre a Eletronorte e os atingidos?

R: As grandes bandeiras eram, casa por casa. Então o que eles fizeram? Eles desapropriaram a casa, tudo bem… E jogava a casa em baixo e aí entregavam o material, refugo de material, de madeira, de telha, não sei o que e tal, pra eles montaram a casa em outro lugar. Os atingidos, não. Tinham uma casa, “tu vai me tirar essa casa? Quero outra casa”. A Eletronorte não admitia isso. Nós falávamos que tem que ter um programa de locação pra colocar gente. Tem que fazer novas casas. Se eu morava numa casa tinha que ter outra casa. Casa por casa. Terra por terra. A Eletronorte também desapropriava pelo valor (venal), né? E não se responsabilizava pela relocação. Então os atingidos não, terra-por terra. E os lotes tem que contar no estatuto da terra pro Amazônia que é 21 hectares. É o que tá no estatuto da terra. Aqueles loteamentos feitos pelo Getat eram, salvo-engano, de 10 hectares. “tem que ser como no estatuto da terra”. Por que arrumar um lote de 10 hectares e o mínimo que o estatuto da terra garante é 21 alqueires? Alqueires, né? Era 21 alqueires. Então terra por terra. A Eletronorte não admitia. A Eletronorte/ os trabalhadores reclamavam muito da avaliação dos imóveis deles. Exigiam que fosse feita uma revisão dos imóveis. Como naquele período que a sociedade civil estava realmente desorganizada, regime de exceção. Quando chegava qualquer funcionário de prestadora de serviço da Eletronorte diziam “o governo vai precisar dessa área pra construir uma obra”, pronto. “Eu não vou ganhar”, “vai receber, vai sair daqui e esse é o valor”, “ah, é muito pouco”, “ou tu pega isso ou tu fica sem nada”. Era essa a conversa. Aí o pessoal pegava e ía procurar rumo. Então é essa que foi a abordagem que a Eletronorte fez e o movimento reagiu com essa pauta terra-por-terra, casa-por-casa, vila-por-vila. Repartimento era um favelão, quero um novo Repartimento. Nós temos que ter igreja, todas as igreja que nós temos aqui, nossos restaurantes. Saiu da prancheta um novo Repartimento, aí que saiu da prancheta um novo Breu Branco. Mas foi todos esses movimentos, toda essa peleja que conseguiu essas realizações. E os lotes foram aparecendo também. Por exemplo, lá em Breu constituíram um Novo Breu Branco com o loteamento da cabeceira do Rio Moju, né? Então pareceu de novo lá um loteamento e tal que originalmente não estava nos projetos da Eletronorte. O que estava era indeniza e bota essa pessoa pra fora. No máximo “tu vai pra outro lugar? Toma esse material eu mando esse trator levar o material pra ti”. Inclusive alguns reclamando que jogavam telha e madeira, quebrava telha e quebrava madeira. Mas mudou, pra forma inicial com que a Eletronorte ( ) trataram esses atingidos, foi assim, pra que ela passou a tratar após esses embates, foi assim, uma mudança excepcional.

E: O primeiro acampamento foi quando?

R: O primeiro acampamento tá na Arca. Acho que 82.

E: Qual foi a ideia do acampamento?

R: Essas grandes bandeiras, né. Quem é que tava tentando já em reuniões menores com a diretoria da Eletronorte lá mesmo, em Tucuruí. A gente tentava as reuniões menores e eles sempre diziam que dependia de Brasília, certo? Como o tempo passava e nada acontecia, aí que forçaram o acampamento pra que viesse alguém de Brasília que afinal veio. Mas também fomos até Brasília numa outra ocasião. Talvez a Aida consiga lembrar melhor alguns movimentos. Eles vieram de Brasília no acampamento também. Aí cada vez que a gente tinha contato com a diretoria, avançava algumas coisas e outras ficavam pelo meio do caminho. As coisas que ficavam no meio do caminho, a gente dava prazo. O movimento dava prazo. Se não acontecia, aí retomava de novo em baixo. Então era um movimento mais ou menos isso.  Segundo acampamento eu já não estava mais lá.

E: Nesse tempo que tava lá, já havia uma diferença; havia uma organização, havia movimentos espontâneos de famílias que não estavam ligadas ao movimento?

R: Não, tinha remanescente. Quando o movimento começou a se constituir, aí foi o desaguador. Todo mundo veio pra cá, pra estratégia. Havia anteriormente algumas organizações esporádicas em Itupiranga, etc e tal. Lá em Repartimento também… Mas não conseguiu dar corpo, né? Não conseguiram aglutinar todos os atingidos da área de abrangência. Esse foi o grande mérito da organicidade, pegar toda área de abrangência, se articular pra fora e tentar se comunicar com a sociedade através da imprensa e através também da ações que a gente fazia localmente. Quando a gente fazia um acampamento daquele, aí tinha um folhetinho que a gente distribuía pra população, pra explicar o que que era aquilo. Tinha adesão de, por exemplo, dos comerciantes. Os comerciantes mandavam alimentação, mandava lona, etc e tal pra ajudar no acampamento.

E: Quem basicamente participava do movimento? Quais os tipos e categorias, ou grupos sociais?

R: Te dá uma pista assim pelas lideranças, né? Inclusive uma parte já faleceu. Todo mundo passou pelo garimpo né ((risadas)). Mesmo o dono de farmácia, o dentista, já passou pelo garimpo. Um agricultor já passou pelo garimpo, um pescador já passou pelo garimpo naquela região. Uma grande maioria eram pequenos agricultores, ne. Mas aquele pessoal, o dentista, o dono de farmácia, a dona de restaurante, lá em Repartimento, no Breu, esse pessoal também veio com tudo. Inclusive, puxando, né? Isso que foi importante. Não foi so o agricultor, pescador e tal. Toda aquela sociedade, todo aquele segmento sociais que estava sendo atingidos, tava no prejuízo, todos eles vieram pro movimento.

E: Essa questão do Boletim, por exemplo, foram feitos dois volumes da Arca. Tinha que finalidade esse material?

R: Olha, eles eram na concepção de dossiê, né? Com eles a gente alimentava pra dentro e pra fora. Alimentava a própria sociedade lá, era uma forma de devolver pra eles, pra eles enxergarem aquilo que eles (UHE) estavam fazendo e pelo o que eles estavam lutando, até onde chegaram, o que tinha pela frente. Eles valorizarem a ação deles. Tinha esse valor pra eles. E tem pra fora, né. Fora no sentido de comunicar a imprensar, comunicar a sociedade como um todo de uma coisa que tava acontecendo lá no interior do Pará. Um grande projeto do governo federal, etc. e tal. O que está acontecendo com tantas mil famílias que estão resistindo a um grande projeto na Amazônia.

E: Quem eram essas pessoas antes de serem atingidas. Atingidos classifica a hidroelétrica, mas antes de começar a UHE?

R: Eram agricultores, pescadores, eram comerciantes, eram toda atividade que você imaginar numa vila, numa pequena cidade, estava lá. Moradores de uma pequena cidade.

E: Por que há essa distinção entre jusante e montante? Como se configura isso na prática?

R: Jusante, esse movimento dos atingidos da barragem, to me reportando foi a montante. Aí teve o movimento a jusante. O movimento a jusante já foi o seguinte, já foi a estratégia que nós adotamos a nível da Prelazia de Cametá de trazer, isso já foi mais forte no segundo acampamento, trazer todo o movimento que a gente chama abaixo da Eletronorte, a jusante, né?, depois de Baião, Oeiras do Pará, Cametá, Igarape-Miri, abaixo da barragem, a jusante da barragem, esse movimento daí onde as comunidades eclesiais de base já estavam bem consolidadas, populações tradicionais mesmo, né? Estavam já nesse processo de retomadas de sindicatos, retomada da (fotai) e tal. Então esse movimento foi chamado pro acampamento também. Eles estivaram lá solidariamente e aprendendo também com o acampamento. Fazendo troca, experiencia. O movimento de Jusante vinha já da experiência (da lei Raimunzim?) que é um outro capítulo que a gente pode conversar mais uma hora, lei dos posseiros, lei (raimunzim) etc e tal. Já vinha, por exemplo, ao longo da transcametá todo mundo resistindo a agenda dos fazendeiros que iam grilando as terras ao longo da transcametá. Liga limoeiro da Juru até Tucuruí. Os movimentos criaram a lei do (anelzinho), (anelzinho e paô), essas lideranças, essas organizações eclesiais de bases, os sindicatos, já tomados, Baião, Cametá, Oeiras, foram até Tucuruí e passaram a dialogar com essa realidade que é uma realidade que eles não estavam na vivência, na pauta deles. Trouxeram, quando voltara, a pauta da barragem. “E nós que moramos a jusante da barragem, quais são as consequências pra nós?”. Aí começou todo o movimento a jusante da barragem. Começaram a partir do momento que foram nos acampamentos dos atingidos da barragem do Tucuruí.

E: Lembra quantas famílias foram atingidas pela barragem?

R: acho que quatro mil. Pegava Tucuruí, o que hoje é o município de Breu Branco, Itupiranga e Jacundá. Era Repartimento, Moju, Moju era enorme, né, cabecinha do Moju é onde tá Breu Branco.

E: Nesse período qual foi a relação com a Eletronorte? O que eles propunham pra vocês? Qual foi a relação? Se tinha uma série de agendas que tinha a agenda local, a ida pra Brasília, como foi essa relação com os dirigentes da Eletronorte?

R: Bom, é o que eu tava dizendo, eles não tinham relação nenhuma. A prestadora de serviço chegava, batia na porta da pessoa e dizia “isso aqui vai ser alagado, vocês vão ter que sair daqui”. Saindo medindo, medindo, medindo, anotava. Um certo dia alguém dizia “é isso que tu vai receber. Tu vai em tal e lugar e vai receber tal dinheiro”.

E; Teve presença da polícia? Era ditadura, né. Vocês foram reprimidos? Teve caras infiltrados no movimento?

R: Tinha, tinha. Tinha pessoas infiltradas no movimento durante o acampamento. A gente até relatou na arca, né. Mas era assim, um advogado da Eletronorte mais um camarada que é coordenador do Getat, mais algumas funcionárias da Eletronorte com a sede em Tucuruí, né,? É:: Faziam esse movimento. Nós sabíamos que a Getat estava lá, nós sabíamos. Getat era ligada ao serviço de informação. Nenhum momento enquanto eu estive participando lá houve repressão mesmo.

E: Nem presos ou assassinatos?

R: Enquanto eu estive lá, não. Não.

E: Como você avalia o papel da imprensa, a importância dela? Ela abriu diálogo pra vocês, ela fez a venda da hidroelétrica como um grande projeto de desenvolvimento da Amazônia?

R: Outro dia me encontrei com Vilaça que era um repórter. Manuel Vilaça. Ele foi deslocado pra lá. Numa das nossas reuniões com a direção da Eletronorte em Tucuruí/ ele foi deslocado pra lá. Até hoje eu me lembro que ele perguntava assim “vocês já não receberam tudo o que vocês tinham pra receber? A Eletronorte já não fez tudo o que tinha que fazer? Tu acha que isso é obrigação da Eletronorte? E os benefícios que ela vai gerar?” Quer dizer, menos que um repórter mais uma espécie de advogado da empresa. Hà dois tons, há esse tom que diz que foi antes que a gente tivesse partido com o recurso do acampamento. E um outro tom que nos foi dado durante o acampamento que aí já foi um tom mais fidedigno, o que era mesmo as pautas, divulgavam toda a pauta, conseguiam situar onde estava o conflito. A gente conseguiu umas duas ou três cobertura do Flávio Pinto, matérias expressivas etc. e tal. Então, é: eu diria que nós tivemos dois tons na cobertura, né. Primeiro, quando o movimento não estava tão incisivo e o segundo já durante o acampamento, a cobertura do acampamento.

E: Uma das coisas

R: Uma das coisas que não está na tua pergunta, o que eu achei interessante na época era o seguinte: quem era o governo do estado? Era o governo PMDB Jader Barbalho. Quando começou a pipocar lá, ter repercussão na imprensa em relação ao que se desenhava ser um conflito maior, o governador Jader mandou um avião buscar a comissão central pra vir aqui conversar com ele. A comissão veio no sentido de pedir apoio do governo do Estado. E o governador veio no sentido de dizer “apoio vocês, mas vocês tem que ter muito cuidado porque o governo federal quer intervir a qualquer momento aqui nos governos do PMDB”. Era naquela época que o PMDB fez barba, cabelo e bigode, né? E o Figueiredo ficou meio… O Jader Barbalho alegou que tinha medo de que houvesse uma intervenção federal por conta da resistência que tavam fazando numa obra que era Federal, né? Mas acabou que ele pelo menos não colocou a polícia dele em cima da gente. Mas eu me lembro desse dilema do governador.

E: Uma das questões da UHE é a participação dos pesquisadores. Como foi essa relação, você falou de uma série de articulação. Essa articulação envolveu as universidades?

R: Não. As entidades clássicas de apoio que nós tivemos na ocasião, além da igreja católica, nós conseguimos apoio da igreja luterana. Inclusive a pastora (Marga Holtz) depois conseguiu captar um recurso e montar uma equipe lá, depois que eu sai a equipe ficou instalada lá. Tocou durante alguns anos mais pra dar apoio. Teve esse movimento dos atingidos pela barragem.

E: Quem eram os integrantes/

R: Tinha a Aida, o Felisberto, tinha o (Luzi.) Horácio. Eu acho, não tenho certeza, mas acho que o Cláudio (Heinneman) que depois foi gerente de banco, também participou dessa equipe. Mas o Luzi eu me lembro bem.

E: Falaste que o movimento começa pela montante e depois essa aproximação deles com o acampamento… Eles vieram a somar com o movimento ou teve duas dinâmicas distintas entre a Jusante e a montante. Como era essa dinâmica? A Dinâmica da jusante era distinta sim. Ela tinha uma gênese totalmente diferente. Eu digo que o movimento a jusante, com a pauta dos atingidos a jusante, se constrói a partir do momento que tiveram contato com a população a montante. Ai sim a jusante teve. Porque, é assim, a montante eles já estavam já com a água subindo até o pescoço deles e eles se mudando. Era um movimento de luta de imediata, resposta imediata. Pessoal a jusante foi alertado que iria fechar a barragem e se perguntarem “o que vai acontecer conosco?”, aí esse pessoal teve relação com as pesquisas sim. Não vou avançar porque não tive puxando isso, não tive acompanhado.

E; Esses dois momentos seria em que ano? Lá começa em:

R: Em 81/82 era a Montante, a Jusante é de 82 ( ).

E: Esse movimento a jusante guarda uma relação a Modert (Movimento em defesa da Região do Baixo Tocantins)?

R: Modert se construiu como sociedade civil com os atores que estavam a jusante.

E: É o Modert então?

R: É.

E: Aida, acho que tem alguma coisa em relação com isso.

R: Pina foi coordenador do Modert até pouco tempo. Até ele ser prefeito praticamente.

E: Esse movimento foi um movimento unitário? Esse movimento até/ ou tiveram ações fragmentadas?

R: Não. Tiveram ações fragmentadas. Foi assim, foi uma chama que pegou. Tinha uma chamazinha aqui, uma li e outra aqui. E aí o movimento espalhou e englobou todo mundo.

E: É possível falar em declínio depois do PDS?

R: Claro que teve declínio. Como aconteceu o que tinha que acontecer, a cota subiu mesmo e construíram Repartimento aqui, construíram Breu Branco lá, arrumaram lote que tinha que arrumar, remanejaram o que tinham que remanejar, deram casa pra quem tinha que dar casa… consumou.

E: O movimento a montante…

R: O movimento a montante. Ele só teve segmento no sentido de experiência, daquele pessoal, já na (pressa) de sindical dos trabalhadores rurais. Mas aí já foi incorporar outras pautas.

E: Tu lembras esse fechamento de ciclo?

R: Acho que 83, já.

E: Asfalto passa a ser pauta sindicais via sindicato?

R: É.

E: Essas novas pautas se referiam a quê?

R: No início de 84 eu saí de vez de lá, né.

E: Entendi.

R: 83 eu andei escrevendo alguma coisa, boletim da Prelazia. Eu andei escrevendo alguma coisa falando sobre consequências da barragem abaixo da barragem. Andei escrevendo, pegando publicações de pesquisadores, etc. e tal.

E: Quais as questões que você apontava nesse período.

R: O que o pessoal da pesquisa alertava era a questão da rota do ecossistema todinha dos peixes, principalmente o mapará, né. Ía interromper todo o mapará. O mapará é todo um peixe/ tem o mapará e tem outros como os bagres migratórios que precisam subir até as cabeceiras, marabá e iam embora. Ninguém sabia o que iria acontecer e realmente foi o que aconteceu, houve um primeiro período em que a pesca foi atingida, os cardumes migratórios tiveram que encontrar outro jeito. Também ela estava sobre a possibilidade/ afeta também a parte das plantas, porque não ia mais haver aquela deposição de resíduos mineiras e orgânicos vindos/ Tucuruí e Araguaia iam ficar detidos no reservatório do Tucuruí e não somente afetar a fauna, mas também a flora. Tinha que presta atenção com o que ia acontecer com os cacaueiros, cacaueiros de Cametá…

E: Tem uma ação, uma reação lá, dos vazanteiros de Itupiranga em 79? O que foi que aconteceu nesse período, consegue falar um pouquinho?

R: O que a gente conseguiu pegar de documento ficou lá na CPT de Tucuruí. Inclusive a gente pegou um documento disso aí, tiramos uma nota etc. e tal dos vazanteiros. Ta na CPT de Tucuruí. Tem um documento.

E: E se pudesse classificar o papel da igreja nesse período, o que diria disso aqui?

R: Ela foi a espoleta. Era ela como único ente que respirava em termo de sociedade civil naquela época, era a igreja pô. Era interessante que boa parte, mas boa parte mesmo, dos atingidos pela barragem nem católicos eram. Eram evangélicos, mas eles vieram em peso com pastor e tudo. Entendeu? Mas quem fazia o elo, fazia a articulação, quem captava recurso, quem furava a imprensa, tentava chegar na opinião pública era a igreja. Aí aparece (Nora Chaves), aparece o bispo, pronunciamento. Fora isso, a CPT já estavam lá no dia a dia com o pessoal.

E: É possível pensar numa atividade sindical antes e depois dessa atividade dos atingidos? Como você classificaria isso?

R: É porque antes a pauta sindical era uma parte do assistencialismo que nós tínhamos, quer dizer, o sindicato moldado na época em que era uma extensão da BRT e que apenas encaminhava coisas pro Funural, pra previdência social. Era uma mera sala pra atender pra previdência social. Era quase uma agência da previdência social. Era uma mescla disso em todos os quatro sindicatos da região. Era uma mescla disso com já um sindicalismo que fazia frente a grilagem. Mas esse sindicalismo que fazia frente a grilagem, também era acompanhado pela comissão pastoral da terra. Então, eu me lembro de ter feito visitas nessa região de Jucundá, Goianésia em que a gente passava por trecho em que as pessoas estavam entocaiadas porque os pistoleiros volte meia faziam incursões atirando, etc. e tal, expulsando o pessoal. Isso durante o período de organização do movimento de atingidos pela barragem. Então esse sindicato estava envolvido fortemente, a grande pauta deles era a luta contra o latifúndio.

E: Quem eram esses grupos de latifundiários?

R:Olha, é:: eu agora não vou saber te falar.

E: Quais eram as questões das tensões? Os grileiros e dos pistoleiros? Como aparecia a pistolagem por lá?

R: Essa era uma realidade mais por fora da prelazia de Cametá. Nós não atuamos/Na Prelazia de Cametá a gente chegava até Tucuruí. Itupiranga, Goianésia, Jacundá, já fazia parte da de Marabá.

E: Entendi. Depois de 82 tu não acompanhaste mais bem essa discussão, né?

R: Não.

E: Se tu pudesses fazer uma cronologia desse período, o que você colocaria de mais importante nesse período em que tu estavas lá? Os momentos mais importantes desse período?

R: A partir de 79 tem essas reações bem espontâneas que aconteceram em Repartimento, Itupiranga, Vazanteiros… Depois quando a Prelazia de Cametá assume isso com a ajuda da Contag que é quando se constituí o movimento dos atingidos da barragem do Tucuruí. Nos acampamentos que aconteceram, né, em 82.

E: Como foi essa articulação de vocês com a Contag?

R: A Josefina. A Josefina foi quem fazia toda a articulação com a Contag. A partir daquela viagem com o Padre que ela começou a se envolver. Inclusive ela era bancada pela Contag.

E: Os Sindicatos se associaram a Contag nesse período?

R: Não. No Tucuruí só mais tarde. Não. Eles ficaram, foi o movimento dos atingidos. Você tinha a delegacia sindical de Repartimento. O sindicato ainda não tinha sido conquistado e logo em seguida o pessoal tinha conquistado o sindicato do Tucuruí. Eles começaram com a Legacia sindical de Repartimento. Já em Jacundá já era o Sindicato que estava articulado ao movimento. Mas ainda fizeram durante o movimento lá dos atingidos da barragem, eles estavam acompanhados pela Contag, mas depois só passaram a integrar mesmo o sistema depois que retomaram a Fetag no Estado do Pará, né.

E: Quais eram as principais questões que os atingidos colocam pra vocês?

R: Primeiro o maltrato. A forma com que eles foram tratados, passaste a vida toda aqui. “Tu não tem mais futuro, vou te dar uma migalha aqui e tu te vira”. Foi assim que a gente encontrou essa pessoa. Com o tempo, eles passaram a ter pelo o que lutar. Eles começaram a visualizar “não, vou ter um novo lote. Estamos saindo daqui e vamos ter um outro lugar pra ficar, bem estruturado. Vamos poder retomar a vida da gente”. Eles passaram a ter esperança quando pensavam que eles estavam simplesmente/tinham sido escorraçados pelo governo maior que eles, o governo federal, em nome de uma coisa que não ia beneficiar eles porque eles sabiam que energia elétrica pra eles, diante de tudo que estava sendo tomado pra eles, não equivalia.

E: O movimento tinha essa clareza “não é pra gente”?

R: Tinha. “Do que adianta ter energia se tô na rua? Prefiro estar na poronga do que tirar os meus meios de sobreviver/tocar minha vida com minha família”.

E: Nesse período que estavam lá, chegaram a ouvir falar em corrupção nas obras da UHE?

R: Vou te falar. Nas locações de terra, porque nem sempre os lotes que conseguiam eram pra quem precisava, pra quem estava dentro da cota de inundação. Que eles/muita gente reclamava que achava que o valor que foi pago pra eles não foi na verdade o valor levantada, foi inventariado. Mas assim, nada documentado, né. Você imagina mil processos acontecendo ao mesmo tempo, quatro mil famílias são quatro mil processos, né. O quanto a relação entre Getat e dono de terra desapropriado que acontece. Entre Eletronorte e empreiteiras que vão construir as novas cidades… Mas, ninguém tinha nada documentado.

E: Como vocês abriram essa porta com o Sr. Luiz Flávio Pinto?

R: Através da CPT regional.

E: O que ele fez nesse período? Eu vi que ele escreveu muito sobre a UHE

R: Foi como você disse, ele escreveu muito, porque a pauta dos grandes projetos ele assumiu pra ele pra colocar na imprensa. E Tucuruí eu acho que foi o primeiro grande projeto que ele a partir daí começou a problematizar. ( )

E: Esse projeto tá basicamente a 38 anos depois, esse projeto de memória que a gente tá fazendo, esta 38 anos depois do início das lutas de vocês lá em 79. O que seria importante num projeto desse tamanho 38 anos depois produzir pra sociedade? O que seria uma contribuição?

R: Deixa alguns minutos, senão eu fico algumas horas pensando sobre isso. ((risos)). De 38 anos pra cá, tudo mudou. Aquelas pessoas já nem existem mais, já são outras dinâmicas, outras pessoas. Repartimento, se eu pego a foto já morreram/ última liderança/ Ah, saiu dois deputados de lá de Repartimento, Belém. Um morreu também. Ele se elegeu vereador e depois se elegeu deputado Estadual, o nome dele é Belem. Depois dá uma pesquisada, pega o nome dele direitinho. (Bacabá) era uma liderança que depois veio pra Fetagre daqui do Amapá. Três anos e morreu num acidente. Eu encontrei com ele nesses encontros de territórios rurais. Última vez que encontrei com ele e logo depois ele se acidentou e morreu.

E: O que é esse negocio de Anilzinho da jusante?

R: Anilzinho já faz parte daquela dinâmica da abertura da Transcametá e da entrada dos grileiros, né, na região. Disputa do espaço com as comunidades tradicionais. Anilzinho,(Ipaô), (Jão Naperes) são comunidades quilombolas, extrativistas, pescadores, né. Isso daí foi início de 80. Coincidiu com essa época. Isso é a jusante, eu tava lá.

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