Entrevista Aida Maria da Silva

Entrevista com Aida Maria Farias da Silva, 56 anos, socióloga, que atuou nos anos ‘80 junto aos atingidos contra a barragem do Tucuruí.

Brasília, 17 de agosto de 2017.

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AidaEntrevistador: O que você poderia falar neste primeiro momento sobre a questão dos atingidos?

Aida: Então, eu vou historiar. Em 1976, quando saiu o decreto de desapropriação da população da área do lago, era vigário numa localidade chamada Repartimento (Novo Repartimento – PA) um padre. Ele era um padre muito conservador. Mas, começou a chegar para ele, a angústia da população porque o decreto era para todo mundo sair, mas ninguém sabia para onde ir, ninguém sabia com quem se entender. Isso em 1976. Esse padre, era mineiro e foi na Bahia, numa conversa de padre… eu vou ao longo da conversa lembrar o nome dele que eu acabei esquecendo… Então ele foi no encontro e relatou a situação do Tucuruí. Lá na Bahia, ele tomou conhecimento da experiência da luta que foi feita contra a barragem de Itaparica. Sobradinho e Itaparica. Lá, ele conheceu uma moça chamada Josefina. Ela, era da CONTAG e assessorou todo a luta dos atingidos da região de Itaparica. Itaparica era na divisa de Pernambuco com a Bahia. Ele convidou então a Josefina para ir em Tucuruí. A Josefina foi, teve uma primeira ida a Tucuruí e disse assim para ele “olha, nós temos que montar uma equipe”. Isso era no final de 81. Eu era jovem, eu tinha 21 anos e era da pastoral da juventude. Eu fui convidada para ser PT. Eu fui para ser PT e já incorporei a equipe que começa os trabalhos na região de Repartimento. Isso foi em fevereiro de 1982. Passou a se compor a equipe comigo, Felisberto Damasceno que era advogado e o Raul Couto que era agrônomo. Tudo com a assessoria, com a ajuda e experiência da Josefina. Nessa época, eu tinha só o ensino médio. E aí, a gente chegou a Tucuruí com todo o suporte da igreja. Mas era uma região onde só tinha um sindicato que era o sindicato de Tucuruí. O sindicato de Tucuruí estava sob intervenção militar. Tucurui tinha vivido, em 1977, uma experiência que o exército tinha vindo a Tucuruí e prendido vários vereadores, prendido o prefeito, donos de farmácia, fizeram dono de farmácia comer jornal. Muita tortura. Então eles (a população de Tucuruí) tinham muito medo de se envolver com qualquer coisa. O sindicato não aceitava (nossa presença).  Foi então que nós criamos uma delegacia com auxílio da Josefina. Uma delegacia sindical em Repartimento que acabou virando um “sindicatão”, ela tinha mais de duas mil filiadas. O número de atingidos na época era de 2.400 famílias que tinham sido assentadas pelo INTRA. Essas pessoas tinham chegado na década de 70. Mal chegaram na terra, quando começaram a plantar capim e cuidar de gado quando veio a desapropriação. Também tinha as populações tradicionais que viviam na região do Itupiranga que eram chamados de “vazanteiros”. Eles eram chamados assim porque viviam da agricultura de vazante. No período de seca, que era no período de verão, eles plantavam cultura rápida. Plantavam melancia, plantavam maxixe, plantavam tudo que fosse uma cultura rápida e vendiam. No período de cheia, essas terras que eles plantavam iam para o fundo. Então eles eram chamados de vazanteiros.  Tinha também acima de Itupiranga, uma mina de diamante – que não tinha uma exploração tão intensa, mas tinha exploração. E existia as populações indígenas, três nações indígenas na região de Tucuruí que eram os Gaviões da Montanha que construíram a barragem em cima da aldeia deles , os Parakanã que a região pegou toda a terra deles e os Asurini que ficavam abaixo da barragem, pegando um pouco abaixo do Tucuruí e a estrada Transcametá. O que ocorre nesse período quando a gente chega lá? Nós não tínhamos estrutura nenhuma, ninguém imagina uma situação daquela, né. O primeiro encontro que nós fizemos trazendo entidades, trazendo organizações da região, de Belém… Veio a igreja luterana, veio a SDDH (Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos), veio a professora da universidade federal (Dina Castro), veio a CPT (Comissão Pastoral da Terra), CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), o CIMi (Conselho Indígena Missionário)… as organizações que tinham lá. Nessa época, o que tinha de movimento sindical estava sob a ditadura. Ah é, veio também o Sindicato de Santarém que ajudava a gente a se organizar naquela época porque estava na mão dos trabalhadores o Sindicato de Santarém. Só existia no Pará dois sindicatos na mão dos trabalhadores, era Santarém e (Oeiras) do Pará. E aí a gente organizou num Cabaré. As prostitutas cederam o cabaré pra gente alojar as pessoas nos quartos e nós fizemos o encontro. A sala de reunião a gente usava a igreja e a sala de festa do prostíbulo lá da cidade porque não tinha outro lugar. E aí nós fizemos a primeira pauta da reunião

E: Isso foi em qual cidade?

A: Isso foi em Repartimento

E: Repartimento, tá  

A: Repartimento era um vilarejo de Tucuruí ainda… Ele não tinha se emancipado. A primeira pauta de reunião foi a pauta de terra por terra e casa por casa. A gente aproveitou a experiência da Josefina e começamos a discutir a pauta de indenização, porque o que acontecia? Quem fez a pauta, quem fez a lista de preços pra indenização das propriedades, das plantações, foi uma equipe de Brasília. Daqui da UNB. Eles tinham total desconhecimento da Amazônia. Para eles nada que era nativo tinha valor para ser indenizado, porque eles diziam “não isso é dá floresta, isso já estava lá, isso ninguém plantou”. Então quando eles viam uma casa de pau a pique coberta de palha, a casa não valia nada na indenização. Então quando a Eletronorte chamou as pessoas pra receber a indenização, teve indenização que valia um prato de comida. Se fosse hoje seria cinco reais. E a pessoa “meu Deus, o que eu vou fazer com esse dinheiro?” porque nada do que ela tinha aos olhos deles valia dinheiro, porque aquilo era da natureza. A casa de pau a pique não tinha valor para eles, então as indenizações eram irrisórias, irrisórias. A partir dali começou/fez uma pauta e foi feito uma revista chamada ARCA. A ARCA foi feita depois da primeira manifestação. Quando nós fizemos a primeira manifestação em Tucuruí que nós fechamos o escritório da Eletronorte pra primeira negociação. Esse movimento, ele ocorria aqui com um movimento de solidariedade na Polônia. Era uma guerra. Era eles dizendo “Olha como vai acabar o movimento aqui, igual está acontecendo na Polônia”. E eles jogavam de helicóptero, na cidade inteira, a Eletronorte, panfletos contra o movimento pra que a cidade se voltasse contra as pessoas que estavam sendo atingidas. A questão é que existia uma relação de parentesco muito forte. Muita gente que estava no campo tinha parente na cidade. As pessoas entendiam que aquela luta não era luta para derrubar o governo, nem nada. É que as pessoas não tinham mais para onde ir. Elas já tinham vindo do nordeste, do sudeste, estavam já sendo (…) de realidade sem-terra. Aquilo lá era quase como um último/ tinha um cara lá chamado Darli, na época, ele tinha sido expulso vinte e duas vezes de terra. Aquela era a vigésima terceira terra que ele recebia e ele estava saindo. Nós fizemos (a manifestação) e foram oito dias de ocupação/não, dessa vez foram três dias de ocupação. A CONTAG intermediou a negociação em Brasília com a direção da Eletronorte. A direção da Eletronorte não aceitava negociar, mas depois no segundo dia eles aceitaram e se constituiu uma comissão de negociação. Essa comissão ainda é montante. Essa primeira negociação foi a montante. Aí foi uma vitória, porque até então não tinha nada. Grande parte das pessoas já tinham recebido, aqueles que receberam primeiro foram retirando seu gado e arranjando outro lugar pra ir. Ela (Eletronorte) fez a negociação pro pessoal desocupar, mas ela não tinha intenção de cumprir a negociação. Foi passando o tempo e foi passando o tempo. Um ano depois, não tinha nada acertado. A ideia era arranjar uma outra área, mapear onde seria a área do lago, até onde iria o lago. E quem na época ganhou a concorrência para desmatar a área do que ainda tinha de floresta para formação do lago foi a CAPEMI, a caixa de pecúlio dos militares. Eu acho que tu lestes isso no Luiz Flávio Pinto. E a CAPEMI não desmatou. Tirou só a madeira de lei mais importante, comercializou e ficou a floresta que não interessava. Ela colocou/ pulverizou toda a área do lago, próxima à formação do lago com agente laranja. Então as folhas murchavam, assim… a madeira se contraia toda. Tinha gente que estava tomando banho no Rio quando caiu o veneno que não conseguia sair da água, dos igarapés. Então, um outro quadro se coloca. Esse período teve um índice altíssimo de câncer. É uma coisa até interessante de olhar/ levantar nesse período a incidência de câncer vindo dessa região. Talvez não veja com tanta clareza porque muita gente ia pra Piauí, pro Nordeste, pros lugares com acesso mais fácil pra se tratar. O que que aconteceu? Houve essa luta, e a gente foi fazendo lutas menores. Porque começou a discussão dos valores “nós vamos rever as indenizações”. E aí se colocou um outro elemento na pauta, não era mais só indenização do rural, da propriedade , do que tinha, do que não tinha do que valia e do que deixava de valer… se acrescentou no rural a questão do lucro incessante na pauta de discussão. Para dizer o seguinte, hoje quando você tira um trabalhador de um terra que ele já tem árvores dando fruto, você tem que indenizar o tempo que ele vai levar pra plantar até a árvore chegar nessa condição. Então, esse é o lucro incessante. Outra pauta que se discutia era economia de quintal. Quanto uma família economiza pelo o que ela usa de quintal. Ele tem uma bananeira, ele tem uma laranjeira, ele tem um canteiro de verdura, ele tem/aquilo tem um valor – – ele cria galinha. E você vai colocar ele numa outra terra que não tem nada daquilo… Então era as economias invisíveis que Brasília não enxergava, não conseguia. Os técnicos não enxergavam de jeito nenhum. Foram lutas e lutas e lutas e lutas. Depois a luta foi pra/a gente organizou a associação. Era difícil tomar o sindicado porque o presidente do sindicado não aceitava filiar os sindicalistas. Não aceitava a delegacia. Cada vez que se fazia um movimento para que Tucuruí assumisse a delegacia, ele fugia. Até que a CONTAG ajudou e a gente conseguiu e ganhou a direção do sindicato. O sindicato incorporou na luta e depois veio um outro movimento maior que nós ficamos oito dias (ocupando) e a partir daí saiu as terras. Aí começou uma comissão para negociar, mas era tudo muito lento. Nas terras, algumas terras não prestavam.  Por exemplo, a área que eles relocaram a população que vivia em Breu Branco que era uma população de transição. Era uma população que vivia na vila de Breu Branco, mas era uma população tradicional cabocla. Não era uma população de colônia de nordestinos, era uma população formada por caboclos da região. Então eles tinham uma cultura de agricultura diferente da cultura de agricultura nordestina. Eles eram vazanteiros e depois eles faziam outra atividade no período que não tinha vazante, entendeu? No período que não era possível usar a vazante. Essa população foi tirada dessa região onde tinha essa cultura de beira de rio e foi colocado num loteamento rural em rio Moju na estrada que vai de Tucuruí pra se encontrar com a PA-150 que é essa estrada que vai pra Belém de Tucuruí. No loteamento rural Rio Moju, a terra era areia, mas além de ser areia, era um barro branco. Então tu pegava uma raiz de mandioca, ela era menor do que uma raiz de cenoura. Então, o nível da produção era muito grande… E a população foi para a terra nua, ela foi toda terraplanagem feita, tirou a camada que cobre a terra, que tinha mais componentes orgânicos e ficou numa terra pobre. Então a população precisava de sesta de alimentação. Naquela época, se criou um grupo especial de terra do Araguaia e Tocantins chamado GETAT em função da ditadura. Ele tinha a função de tratar diferente do INCRA. Era a ditadura, era os militares do GETAT, então era muito difícil a negociação com eles. Isso foi se levando/depois do problema/ a população ribeirinha ela vem se organizar e se formar um movimento conjunto já muito próximo da formação do MAB (que é) quando a gente começa a atentar que aquela população vai ser impactada, de que não vai ter peixe, de que os problemas da água vão recair sob a população de baixo. É aí que a igreja tem um papel superimportante. Ela foi todo apoio até que se formasse o sindicato e eles tomassem a frente. Não sei, qual é a outra pergunta?

E: Não sei, essa é a primeira questão. Tem um movimento espontâneo que acontece antes da / é possível falar de um movimento espontâneo de resistências familiares e individuais que acontecem antes da presença da igreja? Que tipo de relação existia?

A: O que existiu nesse momento, eu tenho muitas lembranças vagas. Deixa eu te dizer… eu já chego com a presença da igreja. Eu chego como uma pessoa trazida pela igreja, eu sou da pastoral. O que existia desse movimento eram cartas, porque até então as pessoas acreditavam que tudo isso se passava sem os olhos dos generais. Que isso era um abuso da Eletronorte. Então existem cartas e abaixo assinados da população. Reclamando e contando o que estava acontecendo, pedindo assistência dos militares. A população não entendia que aquilo era/ e:: nesse mesmo movimento eles se queixavam pra igreja. O movimento que era espontâneo ele era mais no sentido de buscar alguma solidariedade. Alguns indivíduos individualmente e outros/ eu me lembro de histórias de pessoas que se reuniam e escreviam para o Passarinho… que era o ministro da justiça, ministro Jarbas Passarinho. Assim, uma luta organizada não aconteceu. Ela veio a acontecer depois da intervenção da igreja.

E: Vamos falar agora dessa intervenção da igreja.

A: Então, intervenção da igreja é isso. Ela se deu quando ela monta, via a prazia de Cametá uma equipe que contratou colocou a equipe lá, com esse suporte da CONTAG que é na pessoa da Josefina. A igreja abriu os espaços dela, todas da igreja, ela colocou as estruturas que ela tinha, ela colocou as relações internacionais nos momentos que se previa que ia ter um enfrentamento. Os padres e bispos da região iam juntos, na frente, pra impedir um derramamento de sangue, junto com as freiras. Nunca aconteceu prisões ou alguma coisa mais pesada, derreamento de sangue, nesse momento, entendeu? Tinha muito essa / também houve uma cobertura internacional muito grande, puxada pela igreja. A BBC de Londres cobria sempre os eventos. Então saia no Brasil depois de ter saído fora do país. Então tinha as entidades internacionais que mantinham a embaixada das relações internacionais do Brasil um permanente dialogo e questionamento, entendeu? E divulgação internacional. Então isso de certa forma foi o suporte que:: ajudou, que deu uma certa… um respaldo pra pressão. Porque aqui no Brasil não saia, tanto é que a gente tentou fazer não funcionar a barragem, porque houve um movimento de peão com morte de muita gente pelos militares quando eles se revoltaram com alimentação dentro dos alojamentos lá em Tucuruí na barragem. Quando a gente fez o movimento , já o terceiro grande movimento, de impedir o trabalho da barragem, aí foi o momento pesado cercado pela polícia, de ameaça. Mas com diálogo a gente conseguia, mas também era uma pauta que eles iam protelando, eles iam enrolando, eles iam enganando, entende? Então, eles acertavam, assinavam. Tu tens em atas. Todos esses momentos têm em atas de negociação assinadas por eles que eles não cumpriram. Levavam seis meses pra cumprir, não cumpriam. Levavam um ano pra cumprir, não cumpriam. Daí acontecia outro movimento e outra ata, entendeu? Até que se constituiu um movimento de baixo da barragem, o que foi constituído o movimento dos atingidos da barragem do Tucuruí e a partir dali a região entrou junta, de pautas diferentes constituiu uma única pauta. Pauta de baixo, pauta de cima. Até deixa eu te dizer o que, até 86 foi quando se ganhou os sindicatos. 1986. A barragem funcionou em 82, acho. Nem lembro, acho que a turbina funcionou em 85, 85. Então as conquistas/ ganhar o sindicato/ já tinha ganho as novas vilas que foram um pedaço de Itupiranga, que foi Arraias que é Nova Jacundá, que foi Breu Branco, que foi Repartimento que depois viraram cidades onde as pessoas foram realocadas/e assentamentos rurais. Eles pegaram glebas das nações indígenas e abriram assentamentos rurais e botaram os colonos.

E: Você fala em três grandes momentos do movimento dos atingidos. Colocasse um papel importante da igreja e a igreja ajuda esse movimento a se mobilizar. Mas os movimentos, como se constituem esses momentos que você está falando?

A: O primeiro momento foi o momento que era espontâneo. Não tinha nenhuma associação, não tinha nada. Era uma comissão de atingidos. Num primeiro momento uma comissão de Repartimento que depois se uniu com Breu Branco, juntou Itupiranga e fez uma comissão de atingidos pela barragem. Eu lhe digo, esse momento foi de 81 a 84, ele foi um movimento mais que o ovo de baixo vinha mais pra dar apoio, pra ser presença de apoio. A partir dali, antes do fechamento da barragem, já se constituí o modest/modest não, modest é outra coisa, é o movimento de desenvolvimento do Tocantins. Se constituí o movimento dos atingidos barragem do Tucuruí. Aí começa a organização para a conquista dos sindicatos.  A primeira vez que se reúne mesmo o sindicato do Tucuruí é em 85 ou 86, já começando a funcionar a barragem. E a partir dali, porque Tucuruí, a gente conseguiu organizar num primeiro momento uma delegacia sindical que era ela que pedia a intervenção da CONTAG. Porque a CONTAG não aceitava vir ajudar e assessorar sem passar pela via sindicado. Como o sindicato do Tucuruí não chamava, porque o cara não aceitava fazer, o presidente não aceitava. A gente fazia isso via delegacia sindical. Nessa época era presidente da Contag um cidadão chamado Zé Francisco de Pernambuco que depois virou marido da Josefina. A partir da conquista de Tucuruí, aí se criou o sindicato de Breu Branco, aí já é um outro momento. Ali era  os Sindicatos Juntos. Foi um movimento que juntos ganhou a Fetagri, ai já tinha muito mais força. A medida que essas organizações se constituíam a nível estadual, se fortalecia toda a estrutura sindical.

E: Você fala em movimento de montante e jusante. Qual a distinção desses movimentos?

A: Montante é todo mundo que tá na área do lago. Digamos que tenhamos a barragem na região do Rio como divisor, eu está acima da barragem tá montante e quem está abaixo, tá jusante. E qual era a pauta da montante? A Montante era o pessoal que perdeu terra, perdeu território, perdeu plantação, perderam suas terra, casa, tudo. A jusante era o pessoal impactado pelos efeitos da barragem. Por quê? Porque a barragem não feita com escada de peixe. Ela foi fechado no momento da piracema, onde todo o pescado subia para desovar na cabeceira do Tocantins que ficava perto de Itupiranga. Itupiranga fica perto de Marabá, então tu tem quilômetros abaixo. Se pegar a região de Igarapé-miri como último município saia da cara do Tocantins ( ). Existia estudo que mostrava isso, tu pega todo esse pescado que sobe o Rio pra desovar, que era os criadouros de Itupiranga, depois dessa desova eles desciam o Tocantins e vinham para seus poços de criação, entendeu? Quando a barragem é fechada, ela é fechada em setembro. No início da piracema. Então esse pescado que subiu, não desceu mais. Tem estudos que mostra que só em Cametá tinha 111 toneladas de peixe e caiu pra 11 toneladas de pescado. E isso era um cálculo que tu fazia tonelada de pescado-dia. Isso caí e tu vê a miséria. Aí tu vê a forte migração da população, das ilhas de Cametá para a cidade de Cametá. Começa a chegar na cidade de Cametá toda uma miséria que a população não conseguia mais viver. Chegou um período, por conta da qualidade da água, que diminuiu a quantidade de açaí. E a gente tá vivendo um período que o que tinha valor era algumas espécies de peixe na região, não eram todos os peixes que tinham valor. O mapará não tinha valor. Tinha valor os peixes de escamas. E esses foram exatamente os primeiros a não voltarem, desapareceram. O mapará ele conseguia se criar nos poços. Tanto é que a população conseguia conservar os poços e tinham mapará. Ele se reproduzia ali. Mas Tucunaré, outras espécies precisavam fazer esse caminho mais longo… Tainha… Entendeu? E esse pescado que era o pescado de mais valor, que Cametá abastecia a região e vendia pra outras/ levava pra Belém, esse pescado desaparece.

E: Já entendemos que existia um impacto diferenciado, uma vida diferenciada. Quem era essas populações? Existe diferença nas populações da montante e da jusante.

A: Existe. A população de jusante era toda ela extrativista. Viviam do pescado e da produção de açaí. População abaixo ( ) Nazaré dos Patos que é uma cidade que é (baião), mas é divisa com o Tucuruí, a primeira cidade depois do Tucuruí, até chegar a Igarapé Miri. Aí tu tem Baião, Mocajuba, Cametá, Limoeiro do Ajuru e Igarapé-mIri. Era a população de Jusante que foi fortemente impactada. Quanto mais próxima a Tucuruí, mais impactada. E a população de montante a gente pode caracterizar a população de montante no meio rural, e o debate no meio rural é uma questão que precisa ser colada pra poder fazer melhor essa classificação da população, mas se a gente fizesse uma grande divisão entre agricultores e população semi-urbana… porque se a gente pegar a população nas vilas rurais da época, tu pegar Repartimento, Breu Branco, Cajazeira, Remansão que eram vilarejos dessa região de cima que ficaram dentro do lago, tu pega uma população que morava na vila de Repartimento, viviam de agricultura. Ela tinha uma casa na vila, mas tinha um lote. Dentro a Vila era rural, uma parcela mínima, ínfima, não vivia da agricultura… que era o comerciante, o professor. Essa que não vivia, mas raramente. As vezes o professor também tinha um lote. O pequeno comerciante também tinha um lote. Aí tu tem no meio Rural, porque o que acontece, essa população que está nessa região, tem a população que ficou a margem do Rio Tocantins, que era uma população tradicional de caboclos… que é a população de Breu Branco, que é a população de Remansão, de Itupiranga… que é uma população tradicional dos nossos caboclos, nessa região você tinha os vazanteiros com uma economia de vazante, você tinha o ribeirinho com uma diferenciação de ecossistema. Embora a gente estivesse na Amazônia tu tinha uma região de várzea e de ilhas mais constituída abaixo da barragem do que tu tinha acima. Acima tu tinha uma região mais de transição, tu tinha uma parte da terra que era várzea, que tava na beira do Rio, mas tu tinha região de terra firme. Diferente das regiões do baixo Tocantins e de Cametá pra baixo. Até Bocajubá, Baião também tinha essa característica, de transição de ser várzea e também ter terra firme. Ele permite os dois tipos de agricultura. Abaixo, as ilhas de Cametá e Cametá tiha mais de 106 ilhas dentro do Rio Tocantins é só extrativismo, não tinha como plantar um pé de nada porque ia pro fundo de seis em seis horas, entendeu? Essa população, vamos pegar a grande divisão da população de cima. Tu tinha essa população tradicional que já existia desde da constituição dessa região e tu tinha a população trazida pelo Incra e pelo incentivo da abertura da Transamazônica que chega nessa região na década de 70. Essa região lotes, todo pique que vai de Marabá a Santarém. Títulos de terra e de repente ela se sentia meramente usada. “O governo quando trazia nós pra cá já sabia que ía fazer uma barragem, eles trouxe nós pra cá só pra desmatar, pra custar mais barato. Não é possível. Nós chegamos aqui em 1972 em 1976 a gente não tinha onde mais morar, já não tenho mais nada, sai pra onde”. Então tu tens entre os povos aqueles que enriqueceram nesse mesmo esquema, tu tens aquele que foram acumulando lotes de terra comprando de um de outro e que eram fazendeiros. Tu tinha a montante, pequenos que eram vazanteiros e extrativistas. Vazanteiros também eram extrativistas, mas você tinha aqueles da transição entre o pescado a agricultura de vazante e tu tinha o colono agricultura botado pelo Incra, tu tinha um posseiro, tu tinha um ( meeiro). Aí você tinha todas as categorias, todos os tipos de relação e você tinha os grandes fazendeiros. Os grandes fazendeiros fizeram acordo por cima, conseguiram terra onde eles quiseram, foram embora e os pequenos se virara. Essa é a região… e tu tinha as vilas… vila inteira que foi pro fundo como a Vila de Arráias que mudou toda a população pra cidade de Jacundá.

E: O que distingue a pauta política da organização política. Porque num primeiro momento você coloca que começa por cima a organização política, depois ela amplia pra baixo e eles começam a ver por conta dos impactos a necessidade de ter uma articulação política maior, mas que existe um movimento com pautas diferenciadas. Queria que você falasse um pouco dessas pautas políticas.

A: Pautas a níveis de baixo. A população exige poços para melhorar a qualidade da água. Existe um plano de desenvolvimento da região de Jusante. Esse plano previa melhora na educação, produção, pra questão da água e do saneamento. Quando fechou a barragem e começou a surgir os impactos, porque a água muda drasticamente de cor, desaparece espécies, espécies de pescado, surge um surto de doenças hídricas, além disso doenças de pele, pessoas com sérias doenças de pele… Então a pauta era baseada numa política de desenvolvimento pra região no sentido de compensar os impactos, essa era a pauta da jusante. A pauta da montante era uma pauta de realocação, era rever a indenização. E essa história de indenização perpassou governos. Terminou a ditadura, os vários governos e nunca se resolveu na sua totalidade. Reviam uma parte, mas não reviam a outra. Quando houve todo o processo de transição da ditadura que vieram os primeiros governos das mudanças da transição democrática, foi possível um movimento a montante negociar com a Eletronorte estrutura para suas negociações, então a pauta ela deixa de ser uma pauta apenas voltada para reposição daquilo que foi tomado e se amplia para que a Eletronorte dê condições para os sindicatos se estruturarem para fazer a luta. Isso já foi pela década de 90, então tá na pauta, não antes da década de 90, 89 entra na pauta a questão da sede. A Eletronorte cedeu uma estrutura pra fazer as sedes dos sindicados. A Eletronorte dá carro e uma cota de combustível pras direções se locomoverem pra se articularem. Todos os sindicatos da região passaram a ter essa estrutura, Jacundá, Breu Branco, Novo Repartimento. Quem tava dentro da área recebeu esse suporte da Eletronorte. Alguns eventos a Eletronorte até ajudava a bancar nesse período da transição e a pauta continuou sendo essa, das cidades das vilas. Teve questões eu a gente nunca conseguiu sair do/ ir pro concreto. Por exemplo, na relocação havia um debate sobre a questão da vizinhança. Eu sou tua vizinha e tenho uma boa relação contigo aqui… Eu quero que a minha rua/que a relocação seja feita por rua. Hoje nós vamos mudar a rua tal, a minha rua, e a gente mantém a mesma ordem de moradia que tinha na rua anterior. Então eu continuo sua vizinha e a gente continua mantendo as relações que tínhamos. Isso não foi possível de acontecer. E isso traz desagregação, isso traz novos problemas de convivência. Isso não teve. Outra coisa que não conseguia avançar, a discussão sobre a indenização dos quitais, economia dos quintais. Eu também não consegui ir muito longe, logo me elegi deputada e me distanciei. E:::: Eu fui eleita deputada em 90. Eu fiquei em Tucuruí de 82 a 90. Em 89 eu estava em campanha. E aí o que aconteceu, esse movimento, a pauta continuava essa discussão, a própria estrutura da cidade que tinha propostas de prédio, propostas do que tinha que melhorar, a concepção de que uma realocação quando uma empresa desapropria uma área, a condição da realocação não pode diminuir a qualidade de vida e de condições que as pessoas tinham anterior, tinha que ser melhor. Isso não ocorreu em sua totalidade, não ocorreu porque várias condições de acordo na pauta não foram respeitadas. E:: continuou sendo pauta de luta dos sindicados. Mas depois vieram outras histórias porque você de novo entra interesses de fazendeiros, entra outros fazendeiros, então a gente teve várias lideranças dos sindicatos do Tucurí assassinatos. Que conduziam a luta, que vinham como Raimundinho que era um cara que vinha desde o início muito jovem acompanhando, entendeu?

E: Tem um momento que são as tomadas dos sindicatos, anterior. Queria explorar um pouquinho desses dois acampamentos e a função dos acampamentos na luta.

A: O primeiro acampamento… foi em 1982. Não lembro se foi em março de 1982 ou Abril. Tá na ARCA, ela mostra esse primeiro acampamento. Quem produziu a ARCA foi inclusive o Raul. Foi entregue uma pauta, essa pauta que foi construída nas assembleias com essa estrutura deu.. o que a igreja deu? Ela deu uma equipe, ela abriu seus espaços e permitiu que acontecesse as assembleias. Aí foi marcado um prazo pra Eletronorte responder, ela não respondeu. Daí foram se organizando. Como era organizado o acampamento? Era organizado/existia muita gente infiltrada. Então tinha as Assembleias que discutia se iria acampar, qual dia. Mas aí era feito pelos próprios agricultura, quem podia dava um boi, dois bois. Era feita uma coleta de arroz, a comida, o transporte, eles mesmos os agricultores ( ) tinha condições, tava trabalhando na terra, produzindo. Então as pessoas iam até uma certa altura de ônibus e quando chegava lá em Tucuruí, já dentro da cidade, as pessoas desembarcam do ônibus e começava uma caminhada na cidade e ía até a porta do escritório da Eletronorte. Cercava o escritório e entrava. Entrava, baixava os pneus dos carros de tudo quanto é funcionário, ia entrando, ocupando. Até o primeiro acampamento eles não estavam preparados pra enfrentar a polícia. Então só tinha a polícia local e duas mil pessoas. O primeiro acampamento deu duas mil pessoas. As pessoas pegaram e foram fazendo um barraco igual faz barraco de sem terro dentro do escritório da Eletronorte, nos pátios onde ficavam os carros. Foram ficando, foi entrando, usando os banheiros e criando uma situação incômoda que não tinha outra forma senão Brasília. Brasília pagou a passagem da comissão e a comissão foi lá negociar. Foi aí que foi feita a primeira ata de negociação com a Eletronorte em Brasília da comissão dos atingidos com a presença da Contag.

E: O que foi acertado nessa…

A: Nessa pauta foi acertado de que eles dariam, a Eletronorte ia providenciar outras áreas para realocar as cidades, dar terra e rever as indenizações. Foi essa a negociação. Isso não se cumpriu. Algumas coisas se cumpriu. Ela conseguiu, por exemplo, demarcar, arranjar de que área de terra e demarcar e dizer  “olha, aqui vai ser repartimento, aqui vai ser breu branco”, mas não avançou. Acho que foi em Agosto ou em Julho do mesmo ano e aconteceu um segundo acampamento. Esse acampamento ele fechou as entradas da Eletronorte. Já não foi mais do escritório. O primeiro acampamento foi dentro de Tucuruí no escritório da Eletronorte. O segundo acampamento fechou as entradas de Tucuruí. Porque a vila permanente e a vila temporária que era a entrada de peão pra trabalhar na empresa. Esse acampamento durou mais tempo e nesse acampamento começou uma comissão de revisão das indenizações e a contratação das empresas pra construir as casas das vilas. Entendeu? E a partir dai foi ficando e até 85, 86… era a Comissão formada por acho que doze pessoas das várias áreas. Porque aí pegava vazanteiro, pegava agricultor, pegava essas categorias por município, entendeu? Essa comissão é que negociava em Brasília.

E: Era a comissão dos atingidos?

A: Não, só da montante. O nome da comissão era Comissão dos atingidos da barragem do Tucuruí.

E: Entendi.

A: Não, não era comissão dos atingidos. Era comissão dos expropriados pela barragem do Tucuruí. Veio ganhar o nome de Comissão dos atingidos quando pegou a região de baixo já próximo do fechamento da barragem. Entendeu? Até lá era comissão dos expropriados pela barragem do Tucuruí.

E: Considerando esse momento da montante, quais foram as conquistas do movimento?

A: A própria aceitação de negociar e depois as vilas e outros lotes, isso foi a maior conquista. Isso não sairia de jeito nenhum. As pessoas já estavam indenizadas, houve um atrasado no cronograma de fechamento da barragem e isso beneficiou a luta. Porque se não tivesse o atraso ía se fechar. A retirada da população do lago, porque teve gente que não teve condição de sair, foi uma coisa muito louca. Foi uma das coisas mais loucas que eu já vi na minha vida. Tinha famílias tiradas de helicóptero. Inúmeras pessoas que enlouqueceram por conta de problema. O que acontecia? Saía só a família. Eles viam a água chegando e elas estavam ilhadas no meio da mata. Então vários casos assim de pessoas que perderam tudo e nunca mais recuperam na vida. Se suicidaram, elouqueceram… em função dessa história. Mesmo com a população que tinha sido relocada, como foi feito uma pauta de que a população pudesse ficar na margem no lago, e essa pauta foi muito influenciada pela visão da Josefina do Nordeste. Como o Nordeste vive uma seca miserável, ela está na área do lago é estar numa região mais favorecida, pois você tá numa área que tem umidade pra produção. O que é diferente de ir pro sertão que tá na seca. Essa concepção norteou a pauta do Terra-por-terra na margem do lago que era um dos itens da pauta. Casa por casa, novas vilas e terra por terra na margem do lago. Que a Eletronorte não desse a margem do lago para os grandes fazendeiros, mas que colocasse as famílias dos agricultores familiares. Então o que acontecia? A população ía ficando… – a margem do lago e a margem da Transamazônica que não foi inundada. Um trecho da Transamazônica foi desviada por sofrer inundação por estar dentro da margem do lago. Quando a Eletronorte fez a operação Curupira já desocupando a área, tirando a fauna que tava dentro do lago… O que fazer com as caixas de cobra? Soltaram nos lotes dos agricultores pros agricultores verem. Então isso dava uma loucura, que era porra… enfrentamento. Dava briga com os técnicos da Eletronorte, com o pessoal da empresa. Agricultor armado esperando eles irem lá soltar as cobras. Não tinha muito espaço pra onde levar os animais, entendeu? Então tinha o grande conflito e pequenos conflitos da prática de como a coisa ia sendo feita.

E: Agora, fala do remanejamento. Começou a falar de helicóptero… teve ação da polícia para retirada forçada das pessoas?

A: Olha, da minha memória, não. Porque o que que acontecia? Só o crescimento da água, só a ideia de que o lago ia entrar tudo no fundo forçava as pessoas a saírem. Não precisava ter força da polícia porque as pessoas iam amanhecer dentro da água. Agora, teve famílias, não sei quantificar porque a gente não quantificou isso. Elas não conseguiam sair, não foram dadas a elas condições de sair. Era “Cadê a minha casa, vou sair pra onde?” Tanto é que algumas famílias foram pago alojamento até que pudessem receber uma casa. A Eletronorte quando foi enchendo o lago, tinha uma equipe que monitorava tanto de avião quanto de voadeira, se tinha gente, onde tava gente, onde tava animal. Ela monitorou essa fase de enchimento. O lago levou 45 dias para se formar.

E: Esses deslocamentos possibilitou novos assentamentos?

A: Esses deslocamentos/ A indeniza/ Surgiu/ Aconteceu duas coisas. Uma coisa era o que tinha de formou, negociado. Tá aqui na lista que tu é de Repartimento, tu vai pra Repartimento “toma aqui casa, tá aqui tua chave, vai embora pra lá”. A Eletronorte dá caminhão, o que você precisar para se mudar. Algumas famílias quando começou a mudança a Eletronorte não teve a ideia de desmontar as casas, nem na zona Rural e nem nas vilas. O que aconteceu? Começou outra ocupação. Gente, sei lá de onde vinha, que chegou lá e ficou lá. Chegou até em regiões necessidade de fazer três vezes relatamento do mesmo lugar por conta dessa área que não estava desmatada, não tava no fundo, não tava não sei o quê, lá tem plantação, coisa produzindo, vem uma família e fica lá.

E: Tu falaste duma questão que pelo que entendi, uma pauta diferente era a pauta do indígena…

A: Tu sabes que os indígenas não entraste na pauta do movimento durante um longo período. Era uma negociação diferente. Os expropriados era uma pauta de rurais, não era uma pauta que trazia os indígenas. Os indígenas tinham a pauta deles constituída com o CIMI e com as organizações dos índios.

E: Eu entendi que falaste que foram assentados vários agricultores em terra indígenas.

A: Sim, foi na terra Parakanã. A Eletronorte quando expropriou, ela tirou os índios do Parakanã e relocou pra uma região mais próxima de Altamira e Xingu. Quando ela mudou eles, um pedaço da área deles, ela usou pra realocar e botar agricultor. O agricultor não foi colocado em fazenda, foi colocado em terra indígenas. Quando ela fez essa mudança. Mesmo quando os Gaviões da Montanha que é hoje/eles foram pra aldeia mãe-Maria em Marabá. Uma parte da aldeia dos Gaviões da Montanha a Eletronorte usou pra colocar agricultor. Ela não usou os Asurini. Ela não pegou essa região Baixo-Tucuruí e Cametá. Ela pegou a região que fica na margem da Transamazônica e por isso ela pegou os Parakanã.

E: Por que os indígenas não foram incluídos? Foi uma pauta diferente?

A: Tu sabes, essa questão ela é uma questão, assim… Tão louca, tão emergencial, tão assim… Era uma coisa assim… Parece que você está lidando com uma conjunção social, entende? A gente chegava, se a gente não tivesse força, a gente não dormia. Era abrir a porta e tinha negócio de duzentas pessoas querendo ver como elas encaminhavam a vida dela. Se transferiu pra paróquia os problemas pra se resolver com a Eletronorte. Acabou que a pessoa com mais experiência era a Josefina. Quando se organizou os grandes movimentos, se organizou com os agricultores. Foi entrando numa lógica que não se incorporou com os indígenas. Mesmo os movimentos que foram feito ( ) eles são só rurais. Já foram os últimos movimentos que fizeram uma discussão com os índios, os anos mais a frente. Os anos iniciais não.

E: Me fala dessa outra parte. Um momento, um movimento, depois um assentamento, na cidade… me parece que nesse momento surge todo um movimento para a tomada do Sindicado.

A: A tomada do Sindicato acontece antes do reassentamento em 1985. O Reassentamento vai acontecer em 87, 88, 90. Começa primeiro a assentar aqueles que estão mais próximos da área do lago. Parecia tudo muito novo pra Eletronorte. Ela, como não tinha estudos, foi feito na marra assim, foi feito um estudo de viabilidade técnica sem estudo de impacto ambiental e social. Demoraram a ver com clareza onde é o impacto, que impacto? Não existe, tu pega os estudos do Tucuruí, existia os estudos de viabilidade Técnica. Esse Rio tem viabilidade pra ser uma grande barragem por essa e essa razão. Não existia paralelo a ele nenhum estudo de impacto ambiental de nada. Nem com população urbana, nem com população rural, nem vazanteiro, como fica o microclima, não tem coisa nenhuma. Passou um período que você via a mudança no clima com a barragem… O deslocamento da chuva, da umidade, você via claramente. E aí, ela não tinha. Como ela não tinha, ela não conseguia prever. Ela não sabia a cota tal. Ela ia pegar/de fato/porque tu tinha uma geografia na Amazônia que é a Geografia de de/ quando eu encho esse Igarapé, eu encho esse Rio, quais são os igarapés que vão impactar? Tanto é que levou 45 dias pra formar o lago. Esse igarapé encheu tanto que criou um problema onde não se previa. Então eu acho que existia uma coisa de não conhecer a geografia da Amazõnia. De não saber como se comportaria o Rio, qual seria o comportamento daquela região com enchimento da barragem. Os rios, os braços dágua, até onde ia esse impacto.

E: Eu posso falar que há uma mudança de dinâmica, de luta, o movimento tem um ascendência até os anos 90 e depois uma descendência. O movimento é um momento e o sindicato, outra?

A: Eu não acho que há uma ascendência. Tu tens o momento mais efervescente que é o momento que coincidisse com a falta de uma estrutura Sindical. O movimento não é conduzido pelo sindicato num primeiro momento, é um movimento conduzido por agricultores e associações. Não tem uma conjuntura política que dá possibilidade de ser assim. E porque foi o momento de grandes lutas efervescentes que juntou todo mundo? Foi um momento que não tinha nada, ninguém tinha direito. A medida que foi dando direitos, foi conformando uma parcela da população que foi cuidar da sua vida, foi refazer sua vida. Foi botar outra roça. A medida que ele tá ali, ele não tem a mesma participação de quando ele não tinha (terra). Esse segundo momento coincidem quando já existe o sindicato. Aí, um aspecto/tu queres focar na luta? Teu foco não são as condições sociais que se criaram?

E: Não. Meu foco é na luta embora você já tenha falado de outras questões sociais

A: Outras questões vieram… Outros atores apareceram, por exemplo, os posseiros ocuparam as áreas de de / aí eles entraram na pauta “Eu também quero ser indenizado”. Tu cria um segundo momento. Do ponto de vista da organização, a primeira organização que é essa organização que começa espontânea, ela começa com queixas, cartas, com as pessoas individualmente desesperadas e ela vai pra um nível de organização que vira uma associação não formada porque ela não é registrada em cartório, é uma comissão. Depois ela se legitima com a criação de uma delegacia sindical que é a única estrutura possível sindical. A delegacia era maior que o sindicado, a delegacia chegou a ter cinco mil sócios. A delegacia é uma estrutura de base. Ela só foi uma delegacia desse tamanho porque o Sindicato tava na mão dos militares. Não tinha como ser o sindicato, mas ela tinha a estrutura de ser o Sindicato. O papel dela foi o papel de permitir que a Contag desse um suporte e assessoria e fizesse essa transmissão de conhecimento, saberes, que não existia na região. Ninguém tinha a experiência de te lidado com atingidos por barragem, saber o que fazer, o que é uma pauta ´ra discutir. Nenhum dos elementos que se constituíram na pauta da discussão. Era uma coisa familiar, foi uma coisa do conhecimento trazido pelo conhecimento da Josefina com a experiência da Bahia de Itaparica. Tem esse momento, mas esse movimento todo se fecha com a conquista do Sindicato do Tucuruí e depois com os outros Sindicatos. Daí a comissão continua sendo uma comissão, mas não mais uma comissão de agricultores, mas de representantes de Sindicato de trabalhadores rurais e pescadores.

E: Isso se passa em que ano?

A: Isso passa de 86, já é uma comissão assim.

E: Já tá ali na abertura.

A: 86 já passa a ser uma comissão assim. E ai ela vai se configurando, ela vai se solidificando nesse campo. Depois ela se abre pra região do Tocantins que também se soma com o sindicatos. A igreja fomentou a luta com os sindicatos. Ela trabalhava com a ideia de que aquele tempo seria um tempo transitório. Ela não queria ficar pra si com aquela responsabilidade. Ela queria que / até por conta de toda pressão que vinha pra cima da igreja da sociedade. Mas não foi um momento rápido, foi um momento lento. Levou pelo menos uns sete anos pra ganhar todos os sindicatos. Desde que começou o movimento até o último sindicato de Igarapé-Miri. Isso vai até 87.

E: Qual os dois momentos que poderia fazer de distinção antes da abertura e depois da abertura política? Há mudanças?

A: Sim, com a abertura política foi possível dialogar com a Eletronorte. Fazer ela admitir que a legitimidade da luta, admitir que era legitima a organização e aceitar na sua pauta dar suporte as organizações. Mudar/Colocar um carro com gasolina pro sindicato atuar, construir a sede do sindicato, dar maquinário. Isso não é visto como uma troca, mas como uma pauta da negociação. E do outro lado, ele é um amadurecimento. É interessante ver nesse processo todo, como as organizações das Amazônia, as instituições da Amazônia, num processo de grandes processos eram tratadas de formas periféricas. Porque o saber que existia na Embrapa, na Ficap, o saber que existia na Universidade Federal do Pará poderia ter sido traduzido e teriam sido elas as empresas a ganharem as licitações pra fazer a avaliação da indenização. E quem ganhou foi uma instituição de Brasília com nenhum conhecimento da Amazônia. Então tu vê um grande projeto onde o saber local, todo acúmulo científica, toda instituição são totalmente botada de lado. Entendeu? Então isso foi um outro elemento que se tivesse estado, eu não sei se poderia ter sido avançado pra mais ou pra menos, em que nível a ditadura influenciava nos técnicos, mas certamente o olhar sobre a economia da Amazônia poderia ter sido outro, entende? Não ter sido um olhar como uma economia que ela é marginal, que ela é inexistente. Se vigorou a visão do preguiçoso que é a visão que eles tem até hoje do indígena, que não é um produtor. Se tu é um extrativista tu não é produtor, tu é um explorador da natureza, tu é um usurpador, tu não criou nada, tá só tirando da natureza, não vale nada ( ). É todo um saber com a natureza, tu tira e ela não se destrói, não se acaba.

E: Deixa eu te perguntar uma coisa. Você faz referências a Universidade, toda essa dificuldade e limitação de respeito e de consideração (Manacional) da Eletronorte. A Universidade esteve presente na organização do movimento, ajudou de alguma forma?

A: Como pesquisadora. Ajudou no sentido de que fez uns estudos. Ela esteve lá e ajudava a refletir com base nos estudos que ela fez. Uma troca de informações. Ela fazia pesquisa, passava e ajudava a gente ter uma visão maior. Também tem que levar em consideração a qualidade da assessoria… Era muito empirista. A gente não tinha/os dados que a gente tinha, era aquilo que a gente fazia na marra. A gente uma ficha, cada um preencheu a ficha, a gente computou aquela ficha e os dados que a gente tinha era aquilo ali. A gente não contava com o saber científico auxiliando, entendeu? O movimento não tinha uma assessoria técnica qualificada. Era uma assessoria quase assistencial. É diferente de uma assessoria técnica que te dá subsídio pra poder pensar proposta. Era um advogado que queria ajudar falando “a lei tal ajuda em tal coisa, vamos ver a lei tal”. O Leo Couto era um papel de ajudar a pensar os agricultores a colocar no papel a quantidade de produção que eles tinham. O que valia, o que é lucro cessante, o que é não sei o quê. O meu papel era um papel mais no sentido de ajudar na estrutura da organização, de fazer associação, de trazer e organizar assembleia, entendeu? E a figura que tinha conhecimento de uma experiência de luta era a Josefina. Mas a gente não contava com subsídio técnico pra ajudar a pensar.

E: Falaste da presença da BBC que teve algumas coberturas internacionais. E a imprensa local, como se posicionava?

A: A imprensa local dava um flash, mas eu me lembro que era muito mais forte os artigos que o Lúcio Flávio Pinto escrevia ( ). E era forte quando foi muito forte, quando foi colocado agente laranja. Foi aí que a impressa local foi mais contundente, porque ai tinha denúncia do Camilo Viana, tu tinha denúncia daquele agrônomo do Rio Grande do Sul Sebastião Pinheiro. Isso ganha manchete nacional, ganha manche internacional e a impressa local dá páginas e páginas. Depois a impressa passa a dar o processo de formação do lago quando seca e tu tem toneladas de peixe morrendo abaixo da barragem. Tirava do leito do rio com pá mecânica.

E: Aquelas fotos que aparecem no…

A: Quer dizer que nem organizaram a população pra tirar esse pescado pra gerar dinheiro o alimento, não, foi enterrado.

E: foi envenenado os peixes?

A: Não, mas quando foi tirando, os peixes já estavam mortos. Não dava pra aproveitar, entendeu?

E: Tem umas fotos no (…) que são vários peixes na praia e todo mundo olhando.

A: No fundo do Rio, chegando no funil, tu tem região que ficou completamente isolada Nazaré dos Patos, Baião, ficou completamente isolada. Tu tem um momento hoje que eu não sei como é que tá depois que eu me desvinculei. Eu vim embora e cheguei a propor na assembleia legislativa a CPI da barragem, também, de novo, pela história das indenizações. Pra tentar forçar e criar um canal de pressão pra resolver o que não se resolvia. Mas depois eu me desvinculei, nunca mais voltei a Tucuruí.

E: Fala mais da CPI…

A: Eu propus a CPI, quem foi o redator foi o (Miriquinho). A CPI trouxe o debate do que foi todo o problema do Tucuruí. Ouviu técnicos do Incra, Embrapa, da Eletronorte, ouviu lideranças, ouviu bispo, ouviu sobre os problemas que se causou na região. E o relatório da CPI mandava pros órgãos a necessidade de providências. O relatório foi no sentido de pedir providência ao ministério público, ministério de minas e energia, assembleia legislativa.

E: Por que esse relatório foi feito na Alepa e eu não achei..

A: Eu tenho ele impresso, posso pedir minha irmã de Cametá e mandar pra ti. Eu vou pedir que ela mande direto de Cametá pra lá. Eu tenho seu endereço porque eu mandei as fotos.

E: Então, sim, aí, ouviu todo mundo e quais foram as consequências desse…

A: O relatório conclui, né, por todas essas/ do período das negligências e dos prejuízos que causou a população tanto as de montante quanto as de jusante e encaminha pros órgãos competentes fazerem as ações cabíveis. O ministério público, o governo do estado, o governo federal, ministério de minas e energia. O parlamento o único papel que ele tinha era esse, chegar a conclusões e pedir providências.

E: Essa providências foram…

A: Não sei te dizer Carlinhos. Não fui eleita depois deputada e não acompanhei mais o processo. Olha, uma liderança que tinha lá que acompanhava era o (Luzinho) que morreu ano passado, né. Então mataram mais duas lideranças de lá, eu não sei quem está no movimento hoje,

E: Deixa eu te perguntar outra coisa, ouvia-se falar de corrupção nesse período? Recentemente faz uma referência de quando ele era técnico e ele fala de uso indevido.

A: deixa eu pensar se sim. Eu acho que não e tão veemente não. Eu me lembro que uma vez um dos diretores da Eletronorte queria doar pra paróquia 20 mil reais, na época e queria um recibo de como se tivesse dado 200mil. Aí o padre não aceitou. Ele entregava 20 mil e dava um recibo de 200. Isso foi no início do movimento, acho que em 83, 82 ou 83. Tu vê que existia um esquema, né. Mas eles nunca propuseram isso pros atingidos, nem pros sindicatos. Isso eu tenho certeza. Agora, devia ter coisa…

E: Entendi. Essa é uma pesquisa de memória. Você acha que essa questão de trajetória, são quase 40 anos depois. É possível falar dessa memória, ai tem essa memória de todas essas lutas e dificuldades na região?

A: Olha Carlinhos, eu passei em 2014 por Repartimento. Eu fiz uma viagem saindo de Marabá, eu fui de avião até Marabá e saí de Marabá de ônibus até Altamira com meu filho. A ideia era que ele conhecesse a transamazônica. Voltamos de ônibus pra ele conhecer Tucuruí. Em Tucuruí nós pegamos um avião e viemos pra Brasília. Não, mentira. De Tucuruí nós fomos de ônibus pra Cametá. Eu fiz todo trecho de terra pra que ele conhecesse a região. O objetivo da viagem de terra, era pra ele conhecer essa realidade. Porque ele veio criança pra cá, ele veio com 10 anos. A gente morou um período aqui, bem próximo do plano numa cidade de classe média de Brasília que é Aguas Claras. Depois acabou meu contrato com o ministério do meio ambiente fui pra uma cidade mais próxima. Samambaia que é uma cidade mais pobre, a gente ia de metrô, se fosse uma coisa com tempo tu teria ido lá em casa. Mas ia te atrapalhar o tempo, o percurso que leva quase uma hora, atrapalharia tua vida aqui. Então se criou em Brasília, com 19 anos morando em Goias, faz direito. Ele não tem noção da Amazônia, a gente foi duas ou três vezes a Cametá o (Paulo) se matou. Era uma coisa muito ruim, ele voltava de Cametá e precisava de atendimento. Eu não sentia nas estradas, nos quiosques que as pessoas se lembravam dessa história de barragem. Eu acho que existe uma grande circulação do povo ali. As pessoas circulam, vão embora, tá aqui e depois de uns anos volta pra casa dela, vão pra outra cidade, elas mudam. Existe o tempo inteiro esse movimento. Mas as pessoas não se lembravam. De mim ninguém se lembrava. As pessoas que eu vi ao longo de Repartimento, não era ninguém que tava naquela época da luta.

E: Se tu pudesse fazer uma cronologia desse período da tua permanência lá de 82 até 89. Quais foram os principais momentos dessa luta lá na região;

A: Os principais momentos foram os acampamentos, três grandes acampamentos. O que aconteceu em 82, os dois de 82 e o que aconteceu em 86 que a gente ocupou a barragem e montante e jusante. Nem foi 86, foi em 89, montante e jusante e conseguiu negociar as pautas. Depois disso foi a grande mobilização das pessoas. Eu acho assim. O que se fomentou agora, pra mim, eu acho que a gente teve fragilidade política de debate mais profundo, entendeu? Ela ficou numa visão economicista dá casa pela casa, quer dizer, tu não mudou a forma de ver das pessoas.

E: Falaste menos da jusante…

A: Pois é. A jusante tem uma configuração organizativa diferente da montante. Primeiro que a jusante ela é uma realidade de população fixa. São populações ancestrais. A terra de tetravó, bisavô, pai. São gerações sedimentas ali, entende? Cametá é uma cidade até 1976 quando eu cheguei a Cametá porque sou de Altamira, era uma cidade que não tinha ninguém de fora. Todo mundo que vivia em Cametá era de Cametá. Era uma cidade que tinha resistência a gente de fora, eles achavam que iam tomar os espaços deles. A igreja tinha um trabalho de base, de comunidade. As comunidades/ foi lá que nasceu o PT. Elas discutiam tudo, elas eram o único espaço social que o povo tinha no interior. Eu cheguei em Cametá no período que a televisão não era um bem que todo mundo acessava, mesmo na cidade de Cametá. Era uma televisão na rua e a vizinhança vinha ia pra porta pra assistir. Então, ela já tinha ali (…) só um instante.  Tucuruí não, era uma região de migrantes. Tucuruí era uma região de pessoas num processo de transição. Padre Franco, o nome do padre. Era um padre mineiro. O Padre Franco era direitoso, terrível. Era diferente do baixo Tocantins da região da jusante de padres holandeses. Eram padres críticos inclusive a religião, eram padres com uma visão social mais aberta. E eles ajudavam nesse processo da organização. Então eram comunidades que discutiam política, mais organizada, comunidades que já tinham uma luta, uma organização social maior. É diferente da região de montante. Era uma região que tava se formando, muito recente, muito nova. Uma região que se formou com a transamazônica. A transamazônica foi inaugura em 1974. Você viu que o pessoal chegou ali, abriu um pique e foi botando gente dentro. Então eram as pessoas/ um nem confiava no outro/ tu tinha um baiana do lado do mineiro do lado do gaúcho do lado do paulista. Um com preconceito do outro. Um achava baiano safado, o outro preguiçoso, entendeste? Não tinha a base necessária pra estabelecer uma organização mais sólida porque as pessoas estavam se conhecendo, estavam chegando ali. Era uma realidade quase de que forasteiro. Era tudo gente de fora. Então isso era o componente que diferenciava essa população da população de jusante. A população de jusante era o primo do outro, compadre do outro. Era uma relação de parentesco muito forte.

E: E advém toda essa força pro movimento

A: Vem com toda essa força

E: Qual o ano eles vêm

A: Do segundo acampamento para o outro eles vêm com gente pra ajudar, pra fazer presença, pra sacudir bandeira, pra cozinhar, pra ser solidário, só um movimento de solidariedade. Ele não foi um movimento com pauta. Ele vem com pauta depois que se criou um debate de jusante e montante. A partir do terceiro acampamento ele já compõe. 1986. Aí a pauta deles é a pauto de um plano de desenvolvimento do baixo Tocantins, era energia que não tinha chegado lá. Quando a barragem funcionou não chegou energia. Até Tucuruí não tinha energia elétrica em alguns bairros da barragem, o bairro do getat. Era um plano de desenvolvimento pra ele suprir os danos ambientais e econômicos causado com a formação do lago. Isso foi possível depois do impacto. Enquanto não tinha impacto, tinha dúvida “qual problema vai causar? Vai secar o Rio?” como não existia estudo e a gente não tinha suporte, era tudo interrogação.

E: Entendi

A: Inclusive, tu achou essa cartilha do movimento, a jusante? Existe uma cartilha pra discutir o que vai acontecer. O nome da cartilha era “uma grande (mocooca). O Raul que fez essa cartilha. Tu sabe o que é uma mocooca? O pescador faz uma mocooca quando ele quer tapar um Rio, um Igarapé. Mocooca é uma tapagem do Igaparé, ele fecha de vara e folha e o peixe não passa e ele pesca. Então ele fez uma mocooca. Tem outros nomes, tapagem.

E: Tapera…

A: Tapera é casa velha. Paredão é outra coisa, curral é outra coisa. Tem essas indicações que talvez o Raul possa te dar. Foi debate sobre o que pode acontecer abaixo da barragem.

E: O que faltou nessa conversa que tu poderias dizer ainda?

A: Quem sabe… Eu acho que do ponto de vista da organização, ela se une com a organização nacional dos atingidos por barragem que quando chega a assessoria da comissão pró-índio de São Paulo. A lúcia Andrade, Leinade são da comissão pro-indio são Paulo pegam os livros dos povos do Xingu. Esse livro era mais pra embasar a discussão da barragem de Tucuruí e a Barragem do Xingu. Elas acompanham os Asurini e os Parakanã. É aí que elas entram no movimento. Aí a gente tem o componente da contribuição delas. Mas isso já foi na década de 90. Ela liga o movimento ao movimento nacional, que tinha começado no Paraná, de atingidos por barragem. Aí o povo começa a ir para os eventos do movimento nacional de atingidos por barragem, entendeu?

E: Me fala, desses documentos, os documentos tu falaste de uma parte de Belém…

A: E outra no arquivo de Caméta. O que foi produzido no Tucuruí ficou no arquivo da CPT de Cametá. Aí tem uma parte, em Tucuruí/ tinha muito aquilo/ documentos nos artigos dos sindicatos. Até o onde o Raul acompanhou esse debate inicial, ele tem.

E: Esses assassinatos que aconteceram do sindicato são pós abertura?

A: Eles são já por conflito de terra. Nesse componente que vem outros elementos por terra. São os que detonam as lideranças, tem a ver com grilagem de terra.

E: Foram assassinatos em que período

A: acho que agora recente, dois mil e/ eu não estaca em Brasília ainda, eu estava no Pará. Eu vim pra Brasília em 2009, acho que em 2008 ou 2007 foi morto o presidente do sindicato do Tucuruí. O Raimuidinho. Foi morto duas ou três lideranças de Jacundá e Itupiranga.

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